Cobertura vacinal infantil mundial: onde estamos e para aonde vamos
Um artigo recém-publicado na revista The Lancet analisa as tendências globais da vacinação infantil entre 1980 e 2023. O estudo, que envolveu pesquisadores do mundo todo, faz previsões para 2030 e avalia o que é necessário para que as metas da Agenda de Imunização da Organização Mundial da Saúde (OMS) possam ser cumpridas.
A publicação fornece estimativas globais, regionais e nacionais atualizadas da cobertura vacinal de rotina infantil ao longo de 43 anos para 204 países e territórios, e para 11 combinações de doses de vacina recomendadas pela OMS para todas as crianças globalmente.
A pesquisa foi desenvolvida com base no Estudo da Carga Global de Doenças, Lesões e Fatores de Risco (Global Burden of Disease – GBD) de 2023, realizado sob coordenação do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), da Universidade de Washington.
Leonardo Roever é professor doutor do Programa de Pós-graduação em Neurociência e Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e membro do GBD há oito anos. Como colaborador sênior, sua participação no artigo incluiu a análise dos dados, escrita científica, aprovação e revisão.
Roever explica em entrevista ao Jornal da USP que o Estudo da Carga Global de Doenças, Lesões e Fatores de Risco avalia bancos de dados e artigos da área da saúde, como mortes prematuras e anos vividos com deficiência, com a finalidade de desenvolver pesquisas. Segundo informações do GBD, sua rede de pesquisadores conta com mais de 7 mil colaboradores em 156 países do mundo.
Metas para 2030
A Agenda da Imunização de 2030 da OMS (IA2030) busca, através de metas, orientar os programas de imunização e, por consequência, aumentar a cobertura vacinal global. A agenda foi desenvolvida a partir de uma abordagem colaborativa, que abrange as necessidades de países com maiores vulnerabilidades no campo da saúde.
As metas incluem: atingir 90% de cobertura para vacinas essenciais na infância e adolescência; reduzir para metade o número de crianças com dose zero; e concluir 500 introduções de vacinas novas ou subutilizadas, como as da covid-19, rotavírus ou papilomavírus humano (HPV).
O artigo aponta que, para que as metas tenham resultados bem-sucedidos, é necessária a criação de novas estratégias de imunização, que sejam adaptáveis aos contextos de cada localidade para um progresso acelerado. A desinformação e a hesitação vacinal podem ser apontadas entre os causadores das tendências negativas.
A África Subsaariana e o sul da Ásia são considerados como regiões que mais demandam avanços. A América Latina e o Caribe também são destacados, neste caso a meta é que sejam restaurados os números apresentados anteriormente.
Desenvolvido pela OMS com objetivo de garantir o acesso universal às vacinas, o Programa Essencial de Imunização (PAI) atua há mais de 50 anos. A princípio, seu foco era a universalização de seis vacinas para o público infantil. Atualmente, o programa foi ampliado e inclui treze antígenos: bacilo de Calmette-Guérin (BCG), difteria, coqueluche, tétano, Haemophilus influenzae tipo B (Hib), hepatite B (HepB), poliomielite, sarampo, rubéola, doença pneumocócica (PNC), rotavírus (Rota), papilomavírus humano (HPV) e covid-19 – destinada para adultos.
Segundo a pesquisa, entre três vacinas – a terceira dose contra a tríplice bacteriana (DTP3); a terceira dose contra a doença pneumocócica conjugada (PCV3); e a segunda dose contra a meningite meningocócica tipo C (MCV2) – a tendência é que apenas a primeira cumpra a meta de 90%.
Em relação às previsões para uma melhora, Roever aponta esperar que mudanças sejam feitas, mas ressalta que isso depende de diversos fatores, como a capacidade financeira de cada país expandir a cobertura vacinal.
Crianças menores de 1 ano que cumpriram a rotina da vacinação infantil – medida por aquelas que não tomaram a primeira dose da tríplice bacteriana (DTP1) – são entendidas como crianças com dose zero.
Durante o período analisado, o Brasil estava entre os oito países que concentram mais crianças nessa condição, além dele estão: Nigéria, Índia, República Democrática do Congo, Etiópia, Somália, Sudão e Indonésia. Atualmente, apesar de uma melhora, o País ocupa a 17º posição da lista.
Para Roever, isso pode ser explicado pelas condições de vulnerabilidade desses países, que possivelmente possuem sistemas de imunização ineficientes devido à falta de recurso financeiro. Além disso, ele pontua fatores como a falta de acesso e confiança nos sistemas de saúde e de informação como fatores destes números.
A pesquisa ainda destaca que, quando comparados os dados durante as mais de quatro décadas, as tendências em longo prazo mascaram os desafios mais recentes, isso porque a cobertura das vacinas originais do Programa Essencial de Imunização quase dobrou durante o período analisado, porém os ganhos de cobertura diminuíram entre 2010 e 2019 em diversas localidades.
A pandemia da covid-19 tornou os desafios ainda mais intensos. As taxas da cobertura vacinal que caíram em 2020 ainda não haviam retornado aos padrões anteriores em 2023. Segundo o artigo, a contagem de crianças com dose zero atingiu um pico durante a pandemia da covid-19.
As maiores reduções entre 2019 – último ano pré-pandêmico – e 2023 foram estimadas para a cobertura de vacinação contra a poliomielite tipo 3 e as menores reduções para a primeira dose da vacina contra a tríplice bacteriana.
O trabalho completo pode ser acessado aqui!
Mais informações estão disponíveis no relatório da OMS: Agenda de Imunização 2030: Uma Estratégia Global para Não Deixar Ninguém para Trás.
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